Quem ouve audiobook não é leitor

Por Natália Costa Custódio

Sou entusiasta de audiobooks há tanto tempo que me chateia a demora do mercado em explorar o formato. Quando começamos a produzir audiobooks na Mundo Cristão, havia desconfiança e resistência, mas ceder a isso é desistir muito cedo das atualizações de consumo que nossa sociedade impõe.

O audiobook já foi apresentado como proposta de acessibilidade, como atividade para antes de dormir ou para fazer junto a tarefas manuais. Abordar o assunto pela funcionalidade, porém, não me parece o caminho mais frutífero.

O público certo não é um leitor frustrado. Não devemos buscar para o audiobook o mesmo público do livro físico ou do e-book. Em vez de tentar convencer quem diz “ler para mim é só no papel”, a aposta deveria ser em quem já se dispõe a ouvir vídeos como se fossem podcasts, quem consome podcasts de verdade, assiste aulas online sem olhar para a tela ou prefere mandar áudio a digitar. Esse ouvinte já existe, já tem o hábito consolidado — o que falta é uma oferta que o reconheça como ouvinte em potencial, não como leitor de segunda categoria.

Um Brasil que consome horas de áudio por dia em sermões, palestras, mensagens de voz, YouTube com a tela virada para baixo, esse público tem tudo para desenvolver um hábito consistente de consumo literário, mesmo que jamais vá atrás de um livro impresso. É uma porta de entrada para o conteúdo, não uma porta dos fundos.

O mercado editorial tem o vício antigo de falar com quem já lê. Feiras, campanhas de incentivo, listas de mais vendidos, tudo conversa, em grande medida, com o mesmo círculo. Há espaço imenso além dele.

Alcançar esse ouvinte exige mudança de postura. Significa presença nos feeds de quem consome podcasts, não apenas nos espaços do universo do livro. Significa parcerias com criadores digitais que já têm a confiança desse público, não só booktubers. Significa amostras generosas e sem barreiras de cadastro. E significa, acima de tudo, investir na qualidade das narrações: para esse ouvinte, a voz importa tanto quanto o texto. Uma narração é uma porta que se fecha.

O que falta não é produto. Há bons audiobooks, há plataformas, há autores. O que falta é buscar um público diferente com uma linguagem diferente e a compreensão de que ampliar o mercado ouvinte é uma responsabilidade coletiva do setor.

Esse ouvinte está por aí, com os fones no ouvido, esperando que alguém perceba que ele existe.

Com mais de 10 anos de experiência em Editorial, Comunicação e Marketing no segmento de livros, e-books e audiobooks, Natália Costa Custódio lidera as estratégias de Comunicação de sua empresa, atuando em mídias sociais, branding, relações com influenciadores, eventos e assessoria de imprensa. Natália é graduada em Letras (Português/Espanhol) pela Unesp, com especialização em Língua Portuguesa pela PUC-SP, MBA em Book Publishing pela LabPub e pós-graduada em Gestão para Inovação na ESPM em parceria com o ITA.

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