Por Renata Sturm

Muitos dos jovens que hoje lotam os pavilhões da Bienal leram seu primeiro volume depois de serem fisgados por um vídeo no celular. É só perguntar para eles.
Cresci em uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul, a cerca de 100 quilômetros da capital. Não havia livrarias por lá. Saí de casa aos 17 anos, voltei aos 21, e o cenário continuava idêntico: nenhum livro à venda nas vitrines da região.
No Brasil, temos em média uma livraria para cada 72 mil habitantes. Segundo levantamento da Associação Nacional de Livrarias (ANL), a concentração é profundamente desigual: enquanto São Paulo reúne cerca de 1.167 lojas, o Maranhão conta com apenas 21, e o Rio Grande do Sul soma 293.
Em contrapartida, temos aproximadamente 1,3 smartphone por brasileiro, segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas. São mais de 502 milhões de dispositivos digitais no país — uma média de 2,4 por habitante. Em outras palavras: o celular chegou à minha cidade muito antes de qualquer livraria (que até hoje se resume a uma única loja, de nicho evangélico).
É com esse contraste na cabeça que enfrentei as filas da última Bienal do Livro de São Paulo. Corredores tomados, estandes lotados e uma presença marcante de crianças, adolescentes e jovens adultos. Muitos com um smartphone na mão e o nome do seu autor ou livro favorito na ponta da língua.
A pergunta que fica é: como essa geração conheceu a literatura em um país com poucas livrarias, bibliotecas escassas e tão poucos adultos que leem? Como nomes como Graciliano Ramos, Lev Tolstói, Nicolau Maquiavel, Machado de Assis e Marco Aurélio voltaram com força total às listas de mais vendidos?
Pais e professores continuam sendo o alicerce fundamental na formação do hábito de leitura. E, sim, o excesso de tela traz prejuízos reais. Mas precisamos parar de encarar a tela como um monstro destruidor de leitores ou enxergar o e-book e o audiolivro como inimigos do papel.
Muitos dos jovens que hoje lotam os pavilhões da Bienal leram seu primeiro volume depois de serem fisgados por um vídeo no celular. É só perguntar para eles.
Ouvi durante a Bienal uma reflexão inspiradora: se cerca de metade dos brasileiros já é leitora, bastaria que cada um formasse mais um leitor ao longo da vida para termos, finalmente, um país de leitores.
Pouco importa se essa faísca inicial partiu da mãe, da escola, da biblioteca, da igreja, de um influenciador, de uma série de streaming ou da própria Bienal. A missão de quem lê hoje no Brasil é simples: formar mais um leitor.
O mundo mudou. E quem ainda demoniza a tecnologia talvez só não tenha percebido que há um leitor voraz do outro lado da tela.
Renata Sturm é CEO da Maquinaria Sankto Editora. Formada em Jornalismo e com mais de uma década de dedicação ao livro, construiu sua carreira guiada pela paixão por contar histórias e pela formação de novos leitores. É Diretora Suplente da Câmara Brasileira do Livro e membro do Comitê de Valorização do Livro. Futura dona de livraria.