A atenção é o que define uma mídia primária

Por Leandro Sogabe Inácio

Durante os primeiros meses de vida, o som é a nossa primeira forma de contato com o mundo. Os bebês emitem sons para pedir a atenção de alguém e reconhecem vozes antes mesmo de reconhecer palavras, aprendendo a interpretar emoções através da entonação muito antes de compreenderem o significado real de uma frase. Esse processo se repete quando começamos a aprender um novo idioma, seguindo uma ordem natural que vai do ouvir ao falar, para só mais tarde alcançar o ler e o escrever.

A humanidade também construiu sua história por esse caminho, transmitindo e compartilhando conhecimento exclusivamente pela voz, antes dos livros, das bibliotecas e das editoras. Histórias, mitos, leis e tradições atravessavam gerações por meio da narrativa oral, fazendo do ato de ouvir, durante séculos, a principal forma de aprendizado e preservação cultural.

A invenção da escrita transformou esse cenário ao permitir que, por meio da impressão em larga escala, as ideias viajassem mais longe, alcançassem mais pessoas e sobrevivessem ao tempo. O livro consolidou-se como uma das tecnologias mais importantes já criadas e, durante centenas de anos, a leitura estabeleceu-se como o caminho dominante para o conhecimento, a reflexão e o entretenimento.

O momento atual, contudo, nos traz um ponto curioso da história: a tecnologia agora nos permite retornar à escuta sem abrir mão da escala conquistada pelos livros. Não se trata de abandonar a leitura ou substituir o texto, mas de adaptar formatos à realidade de uma sociedade que vive sob constante disputa por atenção, em um mundo onde o tempo se tornou um dos recursos mais escassos. Nesse novo cenário, a voz volta a ganhar espaço por meio de podcasts, assistentes virtuais, conteúdos narrados e audiolivros, mostrando que a escuta está retomando um papel de destaque na nossa rotina.

Diante dessa transformação, surge uma provocação inevitável: se ouvir foi a primeira forma de aprendizado da humanidade, por que ainda insistimos em tratar o áudio como uma mídia secundária?

Para entender isso, pense no que acontece quando assistimos à TV e começamos a mexer no celular. Na teoria, a televisão continua sendo a mídia primária, mas a partir do momento em que o feed do aplicativo captura o nosso olhar, os papéis se invertem instantaneamente. O celular assume a posição principal e a TV passa a ser apenas um som de fundo. Isso demonstra que o status de uma mídia não é definido pelo dispositivo ou pelo formato, mas sim pelo nível de foco e atenção que dedicamos a ela.

Historicamente, no entanto, o áudio sempre foi posicionado como um elemento de acompanhamento, uma trilha sonora para preencher os espaços vazios do dia enquanto realizamos outras tarefas, como a música no rádio enquanto dirigimos, o podcast na academia ou o audiolivro no transporte público. A própria comunicação da indústria reforça essa ideia ao usar argumentos de venda como “escute enquanto dirige” ou “escute enquanto faz exercícios”, empurrando o formato, ainda que sem querer, para o papel de mero ocupante de intervalos ociosos.

Para que o ato de ouvir ocupe a posição de mídia principal, podemos olhar para exemplos que já conseguiram escapar desse lugar, sendo a música o caso mais emblemático. Embora tenha sido colocada como som de fundo por décadas, a música se transformou em espetáculo a partir do momento em que as pessoas passaram a comprar ingressos, sentar em teatros ou viajar apenas para ouvir uma obra de forma exclusiva, transformando o som no evento principal da experiência.

Afinal, existe uma diferença enorme entre ouvir uma música enquanto se lava a louça e apreciá-la sentado em uma poltrona, prestando atenção em cada instrumento, pausa e palavra. A obra permanece a mesma, mas a experiência muda completamente porque o nível de atenção dedicado a ela foi elevado e este é o ponto central da discussão sobre o valor percebido de uma produção.

No passado, o sucesso musical era medido por critérios claros, como o volume de álbuns vendidos, discos de ouro ou prêmios Grammy. Hoje, a indústria celebra milhões de visualizações e streams automáticos, mas quantas dessas reproduções representam atenção real? Quantas vezes uma música acumula números simplesmente por estar tocando em uma TV ligada no YouTube dentro de uma loja ou academia, sem que ninguém de fato a esteja experimentando?

O audiolivro vive hoje o mesmo desafio que a música enfrentou: o de se consolidar culturalmente para sair da posição de complemento e buscar seu lugar como mídia de atenção principal. O livro físico já conquistou esse status porque ninguém o abre dizendo que vai ler enquanto se concentra em outra atividade; a leitura exige e recebe o foco narrativo por direito.

O ponto é que essa transição de percepção de mídia, de secundária para primária, não é apenas uma discussão conceitual ou filosófica; ela impacta diretamente a rentabilidade e o modelo de negócios do mercado editorial. Enquanto posicionarmos o áudiolivro como um mero “tapa-buraco” utilitário para momentos de distração, ele dificilmente figurará no topo das prioridades de compra ou de assinatura do consumidor, tornando-se o primeiro item a ser cortado em momentos de crise. No entanto, a partir do momento em que o audiolivro ganha centralidade e relevância na experiência diária do usuário, o valor percebido da obra explode, transformando a escuta em um hábito de consumo indispensável.

Os dados de mercado mostram que esse valor já está se traduzindo em faturamento relevante. De acordo com relatórios de distribuição da Bookwire Brasil, quando uma obra possui suas versões em e-book e audiolivro disponíveis de forma madura, o formato em áudio agrega, em média, +59% de receita digital para aquele título (dados referentes ao ano de 2025 na íntegra). Não estamos falando de uma linha de receita marginal, mas uma expansão de alcance e receita extremamente importante, que não canibaliza o livro físico e o e-book.

Se uma história é capaz de prender a atenção de alguém por horas quando impressa no papel, não há razão para que não faça o mesmo quando narrada por uma voz marcante. A questão não está na qualidade do conteúdo ou da produção, mas sim no posicionamento e na cultura que construímos ao redor do formato, moldando a expectativa do público para essa experiência.

No fundo, a grande discussão não é sobre o formato audiolivro, mas sobre a gestão da nossa atenção e promoção. Precisamos decidir se o objetivo do mercado é acumular reproduções automáticas ou gerar novas experiências estéticas, pois há um abismo entre ouvir uma história enquanto o mundo acontece ao redor e reservar um momento do dia para simplesmente escutar.

Se ouvir foi a primeira forma pela qual aprendemos a compreender o mundo, talvez o futuro do audiolivro não esteja em disputar os espaços vazios da nossa rotina, mas em reconquistar algo que sempre foi seu: a nossa atenção.

Leandro Sogabe Inácio lidera a área de produtos digitais da Editora Planeta no Brasil, onde desenvolve estratégias com foco em crescimento, comportamento do consumidor e na evolução da distribuição de conteúdo em diferentes formatos e plataformas.

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