Por Maria Stockler Carvalhosa

As falas são fios, que vão nos puxando. Somos levados por cada um desses personagens até o capítulo final, narrado em terceira pessoa.
Desde o final do ano passado, a Supersônica tem experimentado fazer projetos com mais de uma voz. O primeiro foi o romance Antonio, de Beatriz Bracher, publicado pela Editora 34 e lido por quatro vozes: Daniela Thomas, Emilio de Mello, Enrique Diaz e Tomás Sertã. A escolha de várias vozes, aqui, foi imediata, pois o livro é composto por capítulos que alternam entrevistas com três personagens: Raul, Isabel e Haroldo. A partir desses três relatos, Benjamin, o entrevistador, pode começar a entender um pouco mais da história de sua família. Ouvindo, Benjamin consegue ver o silêncio mais de perto. As falas são fios, que vão nos puxando. Somos levados por cada um desses personagens até o capítulo final, narrado em terceira pessoa. Aqui, vemos uma garoa caindo, sobre os vivos e os mortos. Em Antonio, as vozes diferentes dão corpo a todos esses personagens. Reconhecemos suas caras, seus jeitos de falar e o mundo que guardam em si. Talvez essa escolha mostre o começo do uso da montagem, procedimento, sugerido pela crítica literária Flora Sussekind, que seria levado por Beatriz Bracher a seu limite em Guerra I, publicado ano passado.
Tomamos a mesma escolha, às vezes, por motivos diferentes. Publicamos, em fevereiro, a versão em audiolivro da peça Ana Livia, de Caetano Gallindo, com as atrizes Bete Coelho e Georgette Fadel, que interpretaram a versão original no teatro. Nesse texto, as duas personagens tentam falar, mas se interrompem. Ana tem algo a dizer. Livia não quer escutar. Livia tenta falar do cachorro das duas. Ana se esquiva. Aqui, a língua não é um país. A língua é um mar onde por vezes se nada e outras se afunda. Ainda sim, e por isso mesmo, algo brilha no choque das duas personagens. Livia, em um determinado momento, declara:
“Não tem nada pra falar, Ana. Não tem mais nada pra falar. Pode dizer de uma vez isso aí que você quer me dizer. Eu estou te escutando. Com “mar” ou sem “mar”. Eu estou sempre te escutando. Pode dizer. Eu sou toda ouvidos.”
No final, Bete Coelho faz um milagre. O impensado contamina o pensado. Ela repete a mesma frase tentando imitar o que seria a voz de uma princesa, de uma tempestade, de um rinoceronte, do mar e de uma garoa levinha caindo no gramado.
Em mais um audiolivro a ser lançado no meio do ano, em parceria com a editora Todavia, quisemos experimentar o efeito de várias vozes sobre a leitura. Se trata da coletânea a Educação sentimental do vampiro, de Dalton Trevisan, organizada por Felipe Hirsch e, novamente, Caetano Galindo. Dentre as pessoas que leram os contos desse escritor espetacular e fundamental estão Arrigo Barnabé e Pascoal da Conceição. Talvez aqui, como no Diário da tristeza comum, a escolha por várias vozes não parte de uma indicação clara do texto, mas porque a divisão do livro em diferentes contos e crônicas se alia a um autor, contemporâneo mas já clássico, que tem uma importância, ao mesmo tempo, pessoal e universal a seus vários leitores. Esses projetos especiais são uma forma de encontrar a obra deles de uma nova maneira.
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“Na frase árabe há espaço suficiente para um continente de tendas. Acomode-se em uma delas e sonhe com um verão menos quente.”
Esse é o convite feito pelo próximo audiolivro da Supersônica em parceria com a editora Tabla. Gregório Duvivier, Milton Hatoum e Yara Ktaishe dão voz ao Diário da tristeza comum, de Mahmud Darwich, um dos maiores nomes da literatura palestina e árabe do século XX, traduzido por Safa Jubran.
A primeira frase que se escuta, nesse audiolivro, é o título original, em árabe. As palavras de Mahmud Darwich têm peso e carregam consigo todos os lugares pelos quais já passaram. “A língua é parte da pátria, mas não a encerra. Seria instável demais. Não, a pátria precisa ser outra coisa, mas o quê?” Darwich se debruça sobre essa pergunta, com a engenhosidade de quem desarma uma série de armadilhas. Um país não é um mapa. A certidão de nascimento não garante que ainda é possível encontrar o lugar onde alguém nasceu. Entre a memória e a história, a desorientação é imensa. “Permita-me lhe dizer que, enquanto estiver vivo, a Palestina estará viva.”
Nos nove ensaios desse livro, escutamos, alternadamente, Gregório e Yara. O penúltimo ensaio, “Silêncio por Gaza”, foi lido por Milton Hatoum, assim como o posfácio, de sua autoria. São pessoas que vêm, originalmente, de lugares diferentes: Rio de Janeiro, Manaus e Síria. Durante as gravações, me impressionaram os estilos de leitura, tão diferentes. Há respeito na voz dos três, mas há verdade na voz da Yara: nas palavras originais em árabe e no sentimento por trás. Ela nos coloca no seu bolso e o tempo, em volta, para.
Maria Stockler Carvalhosa é fundadora da Supersônica, editora especializada na publicação de audiolivros como projetos artísticos. Graduada em Letras pela PUC Rio, é estudante de PhD do departamento de Espanhol e Português da Universidade de Princeton (Estados Unidos).