Gente fina, elegante e que lê em pé no metrô

Por Lorena Portela

Não sei exatamente como aconteceu, provavelmente resultado da quantidade de ociosos minutos que passo dentro do transporte público de Londres, mas desenvolvi uma certa obsessão, leve e nada ameaçadora, pelas pessoas que leem livros em pé dentro do metrô. Passei a encará-las com um prolongamento que, para os padrões britânicos, poderia se confundir com importunação, embora a minha intenção esteja longe, muito longe de importunar quem quer seja, muito menos essas pessoas. É admiração mesmo, e tenho meus motivos.

Para começar, desde criança tenho um problema, cujo nome clínico eu não sei, que me impede completamente de ler em transportes, sejam eles quais forem: carro, ônibus, trem, avião, barco nem pensar. Jamais. Diferentemente de muitos dos meus colegas de escola e faculdade, por exemplo, nunca pude usar aquela meia hora do trajeto de ônibus para a revisada final que me salvaria das notas baixas nas provas. Moro na Europa há quase 10 anos, imagine não poder usufruir do charme de ler nos trens. Ou de, ocupadíssima, usar meu laptop para resolver coisas de trabalho no trajeto St. Pancras International – Gare Du Nord.

E não é só ler em movimento que me dá severas tonturas e ânsias de vômito. Digitar mensagens, não posso (mas mandar áudios, sim, me perdoem amigos, eis aqui o motivo). Ver vídeos e filmes, não tem como. Meu tempo em transportes, mesmo os mais longos, está para sempre condenado ao exercício de observação do que me rodeia ou aos podcasts e músicas o que, ok, quebra um grande galho. Mas sinto falta, queria poder ler, e lembro de, no ano passado, num voo Londres – Los Angeles, 12h sem fim, insisti na ideia de que poderia ver filmes depois de tomar remédios para enjoo. O remédio funcionou, não tive náuseas, vi 3 filmes seguidos. Parecia tudo bem, eu havia desvendado a fórmula da minha liberdade. Todavia, logo que pisei os pés na Cidade dos Anjos, ainda na checagem de imigração, tive uma séria crise de motion sickness (chamo assim porque foi o que o médico disse), a sensação de tontura chegou com tudo, durou 15 dias e eu fui parar no hospital. Ainda bem que eu já estava de volta a Londres, onde pude usufruir do NHS, o serviço público de saúde. Nos EUA, resolver meu problema de enjoos teria me custado a casa que ainda nem comprei. Enfim, o incômodo só passou depois de uma cartela inteira de medicação. E ficou a grande lição, não me arrisco mais.

Mas tem outra coisa, uma dúvida que me ronda. Mesmo se eu pudesse ler nessas situações, será que o faria com a frequência com a qual fantasio, considerando que tenho um smartphone em mãos e nele: Instagram, WhatsApp, Threads e portais de notícias? Porque – sei que estou chovendo no molhado aqui – os smartphones nos roubaram, com uma habilidade inquestionável, a capacidade de fazer qualquer coisa como fazíamos antes, imagina ler. Lembro de, na adolescência e no começo da faculdade, engolir livros com uma frequência que beirava a mania. Tardes e tardes agarradas nas histórias, algumas vezes parando só para comer, ou nem isso. Hoje, embora eu ainda consiga manter uma certa rotina de leitura, estou, como quase todo mundo que conheço, muito mais distraída. E intercalo Sandro Veronesi com vídeo de gatinho, Han Kang com fofoca de novela, Ian McEwan com absurdos da familícia. E, com frequência, percebo que não estou lá nem cá. As velocidades e as cores e sons e a poluição das redes sociais nos suspenderam no espaço e lá ficamos, perdidinhos da Silva.

Pois voltando ao metrô. Nesse baile entre a ameaça de tonturas e enjoos e a pouca capacidade de concentração, invejo mortalmente a pessoa que, de pé na Victoria Line, ignora todos os estímulos em volta, os barulhos muitos, os cheiros, os esbarros, o calor, e mantém a cabeça baixa e os olhos nas páginas da ficção. Invejo as pessoas que leem, invejo os autores que escreveram. Invejo a elevação moral, o superpoder, a evidência de que sim, afinal, há seres humanos melhores do que outros e esses estão ali na minha frente, inabaláveis. Quem lê de pé, ou seja, quem dispensa até o mínimo conforto para essa atividade, faz qualquer coisa, é capaz de concluir qualquer tarefa, pode ir direto pra o instituto do professor Xavier. Jamais serei como elas, meu organismo não deixa, o Zuckerberg também não. Me resigno. A mim me resta seguir a vida com o fone de ouvido e uma caixa de Dimenhydrinate como fiel companheira.

Lorena Portela é escritora, autora dos livros Primeiro Eu Tive Que Morrer (2020, Planeta) e O Amor e Sua Fome (2024, Todavia). Nascida no Ceará, viveu em Lisboa, onde se especializou em Comunicação e Cultura, e hoje mora em Londres.

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