Por Marcelo Duarte

O sucesso recorrente das figurinhas demonstra que o valor de um objeto está na informação que ele carrega e na experiência que proporciona.
Dias atrás, a caminho de uma visita a meus pais, parei numa banca para comprar figurinhas da Copa do Mundo. A banca ficava junto a uma barraca de frutas, com mesinhas e guarda-sóis. Uma mãe e seu filho, de uns 7, 8 anos, separavam as figurinhas que tinham acabado de comprar.
– Essa aqui é do Paraguai, mãe – disse o menino, identificando o país pela bandeira, enquanto a mãe riscava o número correspondente numa folha de papel com a grade dos 980 cromos.
Os dois pareciam estar se divertindo. A comovente cena me confirmou que os álbuns de figurinhas talvez sejam um dos melhores exemplos de como experiências analógicas continuam encontrando espaço em um mundo cada vez mais digital. As coleções poderiam existir apenas em aplicativos e telas? Sim, mas milhões de pessoas ainda se reúnem para trocar figurinhas, colá-las nas páginas e celebrar a sensação física de preencher cada uma das 48 seleções. As feiras de trocas de figurinhas reúnem dezenas de pessoas todos os finais de semana. O livro O álbum dos álbuns de figurinhas das Copas, que lancei este ano, resgata a história de todas as coleções dos Mundiais lançadas no Brasil e mostra como esse hábito atravessa gerações e cria memórias compartilhadas entre pais e filhos, entre adultos e crianças. O sucesso recorrente das figurinhas demonstra que o valor de um objeto está na informação que ele carrega e na experiência que proporciona.
Essa lógica ajuda a explicar por que tantas peças não digitais seguem resistentes. Discos de vinil, jogos de tabuleiro, câmeras fotográficas instantâneas e, principalmente, livros convivem com versões digitais muitas vezes mais rápidas e convenientes. Mas a nostalgia certamente desempenha um papel importante nesse processo, ao despertar memórias afetivas e criar conexões emocionais com hábitos do passado. Claro que a sobrevivência do analógico não se sustenta apenas pela saudade. Ela também está ligada ao desejo humano de tocar, guardar, colecionar e transformar experiências em algo tangível.
Para o mercado editorial, essa constatação traz uma perspectiva otimista. Livros oferecem muito mais do que acesso ao conteúdo. Proporcionam presença física, permanência e uma relação sensorial difícil de reproduzir em qualquer tela. O futuro provavelmente não será uma disputa entre o digital e o impresso, mas uma convivência entre formatos. Assim como os álbuns de figurinhas continuam encantando novas gerações, os livros tendem a preservar seu espaço ao oferecer aquilo que a tecnologia, por mais avançada que seja, ainda não consegue substituir completamente: a experiência única de transportar uma história em suas mãos. Ou, no caso da mãe e do filho do começo desse texto, carregar nas mãos os maiores craques do futebol mundial.
MARCELO DUARTE é jornalista, escritor e editor. Lançou em 1995 o primeiro “O guia dos curiosos”, hoje uma coleção com dez volumes. É autor também de romances juvenis, entre eles “Esquadrão Curioso – Caçadores de Fake News”, “O mistério da Figurinha Dourada”, além de quatro títulos pela coleção Vaga-Lume. Recebeu o Troféu APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor programa educativo do rádio pelo “Você é Curioso?” em 2006 e foi finalista com o “É Brasil que Não Acaba Mais!” em 2017. Seu livro mais recente é “O álbum dos álbuns de figurinhas das Copas” (Panda Books). Atualmente compartilha seus conteúdos nas redes sociais do @guiadoscuriosos.
Crédito da foto: Cássia Cinque/4 Ever (divulgação)