Nos bastidores da Bienal do Livro: como o áudio ganhou um dia inteiro no Papo de Mercado

Por Talita Facchini

Por dentro da curadoria de uma Bienal histórica e da criação de um dia inteiro dedicado ao áudio

Em uma Bienal histórica, a programação reuniu diferentes profissionais do setor, colocou discussões estratégicas em pauta e mostrou que o mercado de áudio já demanda mais espaço, planejamento e atenção das editoras

A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo terminou com números históricos: 760 mil visitantes e um crescimento médio de 57% no faturamento dos expositores. Os resultados são animadores e, além de confirmarem a força dos grandes eventos literários para mobilizar leitores, dão um ânimo a mais ao mercado como um todo. Nos bastidores, talvez, todo o resultado seja ainda mais gratificante.

Nesta edição, tive a oportunidade de ser a curadora do Papo de Mercado, espaço dedicado aos assuntos estratégicos do setor editorial. Foram mais de 60 painéis, quase 200 participantes e o desafio de reunir o maior número possível de temas relevantes para profissionais de diferentes áreas — e ao mesmo tempo fazer com que esses temas interessem também ao público que, em um primeiro momento, vai à Bienal para comprar livros, visitar suas editoras preferidas e, quem sabe, conseguir o autógrafo de um autor que admira.

A expectativa, misturada com medo e ansiedade, era ter o espaço ocupado por pessoas e assuntos relevantes todos os dias. A realidade: felizmente, o Papo de Mercado mostrou que mereceu o espaço maior que ganhou nesta edição e consolidou a importância que vem conquistando desde que passou a integrar a programação da Bienal como um Espaço Oficial.

Por dentro da curadoria: o primeiro ‘Audio Day’ no Brasil

No esforço de conversar tanto com os profissionais do mercado quanto com o público leitor, o Papo de Mercado reuniu diferentes áreas do setor para discutir algumas das mudanças que já estão redefinindo a produção, a circulação e a descoberta dos livros. Dados, inteligência artificial, novos modelos de negócio, comunidades de leitores, internacionalização da literatura, tradução, tendências editoriais e integração tecnológica estiveram entre os temas da programação.

Entre todos eles, o áudio ganhou um espaço especial — e já era hora. Há alguns anos, o segmento vem conquistando protagonismo nas principais feiras internacionais do setor, com Frankfurt, Bolonha e Londres dedicando dias inteiros à discussão de um formato em plena ascensão.

A ideia ganhou forma e consistência a partir da parceria com André Calgaro, fundador da Narratix e um profissional cujo conhecimento e rede de contatos fizeram toda a diferença.

Como dividir a programação? Quantos painéis realizar? Que temas abordar? Quem convidar? André e eu pensamos nesses e em muitos outros detalhes para construir uma programação que conversasse com os profissionais brasileiros, oferecesse uma perspectiva internacional e, ao mesmo tempo, fosse objetiva e conectada à realidade do mercado.

Assim, pela primeira vez, o Papo de Mercado dedicou um dia inteiro ao formato, reunindo editoras, plataformas, produtores, narradores e outros profissionais para discutir desde os bastidores da produção até estratégias de catálogo, distribuição e descoberta. As conversas mostraram um mercado que amadureceu, mas que ainda tem muito espaço para crescer — e que exige decisões cada vez mais estruturadas de todos os seus agentes.

Para as editoras, talvez esse tenha sido o principal recado do dia: o áudio já não deve ser tratado apenas como uma extensão eventual do livro impresso ou digital. Ele precisa entrar mais cedo na estratégia editorial, desde a escolha dos títulos e a negociação de direitos até as decisões sobre produção, distribuição, metadados e divulgação. Construir um catálogo em áudio exige investimento, planejamento e conhecimento do público, mas também abre novas possibilidades de circulação para histórias, autores e conteúdos.

No papel de curadora — carregando o peso da programação, os inúmeros detalhes dos bastidores e a esperança de ver o espaço cheio —, o “dia do áudio” superou todas as minhas expectativas.

Com o Papo de Mercado lotado em todas as sessões, ficou claro que o segmento precisava mesmo de mais atenção em um evento como a Bienal do Livro. Tanto pela importância de discutir as transformações de um mercado em constante evolução quanto pela necessidade de reunir diferentes profissionais em um mesmo espaço, dentro de um evento dessa magnitude.

O que fica é um orgulho enorme e a felicidade de ver que tudo deu certo. Tenho repetido isso algumas vezes para mim mesma: “deu tudo certo”. O Audio Day foi grande, necessário e bem construído. Que venham outros “dias do áudio” por aí.

Talita Facchini é jornalista especializada na cobertura do mercado editorial. Atuou por nove anos no PublishNews como repórter e editora assistente, período em que acompanhou de perto os principais movimentos e pesquisas do mercado brasileiro e internacional. 

Nos últimos anos, cobriu importantes eventos da indústria do livro, como as Feiras do Livro de Frankfurt, Sharjah e Pequim, além de eventos literários brasileiros como as Bienais do Livro de São Paulo e do Rio e a Flip. 

Já moderou diversos painéis, atuou na curadoria de projetos e eventos literários e produziu análises e relatórios sobre o mercado editorial. 

Neste último ano, contribuiu como repórter no Estado de S. Paulo (Estadão) e foi a curadora do espaço Papo de Mercado – dedicado a debates estratégicos sobre o presente e o futuro do mercado editorial – na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo (BILSP26).

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