Neste artigo, retomamos nosso giro pelos movimentos que ajudam a entender para onde o mercado de audiolivros está caminhando globalmente. Em agosto, diferentes novidades convergem para uma questão cada vez mais importante: como conectar catálogos em expansão aos ouvintes certos? O Spotify passou a testar playlists de audiolivros criadas a partir de comandos em linguagem natural; a Spiracle prepara um relançamento com foco em descoberta e curadoria; e, no Brasil, o Publitik chega como uma nova ferramenta para acompanhar tendências editoriais e movimentos de mercado. Também olhamos para uma nova campanha global da Audible e para a aquisição da Boldwood Books pela RBmedia, dois movimentos que ajudam a observar como comunicação, catálogo e distribuição seguem se articulando no mercado de áudio.
Spotify leva playlists por prompt aos audiolivros
Depois de música e podcasts, chegou a vez dos audiolivros. Em agosto, o Spotify anunciou a expansão da Prompted Playlist para o formato, permitindo que usuários descrevam em linguagem natural aquilo que querem ouvir e recebam uma seleção personalizada de livros. A funcionalidade está sendo lançada em beta para usuários Premium elegíveis nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia e Suécia.
A ferramenta combina o comando do usuário com seus hábitos de escuta e sinais do universo literário. É possível, por exemplo, pedir uma lista de livros com adaptações recentes e boa recepção, ou criar um calendário com um audiolivro por mês, limitado a determinada duração e alinhado aos hábitos pessoais de consumo. As playlists podem ainda ser configuradas para atualização diária ou semanal. A lógica já vinha sendo aplicada a música e foi posteriormente expandida aos podcasts; segundo o Spotify, mais da metade dos usuários que utilizaram a função para podcasts encontrou um programa que ainda não conhecia.
Para o mercado de audiolivros, a ferramenta reforça a importância de pensar a descoberta para além de gênero e autor. Se o usuário passa a buscar obras por ocasião, tema, duração, adaptação ou interesse momentâneo, metadados e contextualização ganham espaço na estratégia de catálogo. Um título de backlist relacionado a uma adaptação audiovisual, por exemplo, pode voltar a circular quando a intenção expressa pelo ouvinte encontra informações suficientemente claras sobre a obra.
Fonte: Spotify Newsroom
Spiracle aposta em descoberta e curadoria na ampliação do catálogo
A britânica Spiracle Audiobooks anunciou para setembro o lançamento da Spiracle 2.0, uma nova versão de sua plataforma e aplicativo, com catálogo superior a 70 mil audiolivros e uma oferta ampliada de títulos de grandes editoras e selos independentes. O relançamento coloca descoberta e curadoria no centro da proposta da plataforma.
O movimento chama atenção para um desafio que acompanha a expansão dos catálogos digitais: disponibilidade não significa necessariamente descoberta. Para editoras e distribuidores, isso reforça possibilidades como vitrines temáticas, seleções editoriais e campanhas de backlist que organizem o catálogo a partir de interesses, momentos e comunidades de leitores, criando novos pontos de entrada para obras que já estão disponíveis em áudio.
Pra que não conhece, a Spiracle esteve envolvida em projetos como o Audiobook in a Card, que transforma o audiolivro em um produto físico vendido em livrarias: o comprador recebe um cartão com um código para adicionar o título à biblioteca digital da Spiracle. Entre os lançamentos recentes está uma edição do Tao Te Ching narrada por Tilda Swinton.
Fonte: The Bookseller
Publitik: inteligência de mercado também pode orientar estratégias de áudio
No Brasil, agosto também trouxe uma nova ferramenta para quem precisa acompanhar o mercado editorial. Desenvolvido por Bruno Mendes, o Publitik reúne em um mesmo ambiente notícias, pesquisas, listas de mais vendidos, redes sociais e informações de diferentes mercados internacionais. A plataforma utiliza agentes de inteligência artificial para organizar dados de veículos especializados e fontes de dezenas de países, além de oferecer alertas personalizados, acompanhamento de tendências em redes como TikTok e Instagram, autores e livros mais citados e integração com metadados da Metabooks. A plataforma também prevê estudos específicos sobre nichos, entre eles os audiolivros.
Para uma estratégia de áudio, ferramentas desse tipo podem ajudar a transformar sinais externos em decisões de catálogo. Uma efeméride que ganha atenção pode justificar a retomada de um título de backlist; uma adaptação audiovisual anunciada pode antecipar a produção em áudio de uma obra; um gênero em alta nos rankings ou no BookTok pode contribuir para priorizar futuros lançamentos; e o acompanhamento de BookTokers e Bookstagrammers pode ajudar a identificar comunidades e criadores que já conversam com determinados livros antes mesmo da estruturação de uma campanha.
Fonte: PublishNews
Audible leva ao Brasil campanha sobre o impacto da escuta no cotidiano
A Audible lançou em agosto a campanha de marketing global Stories that Speak to You, com chegada ao Brasil em 17 de agosto. A proposta é mostrar como uma história em áudio pode transformar momentos cotidianos e produzir efeitos que continuam depois da escuta. Um dos filmes da campanha acompanha um corredor que sai para uma corrida curta, fica tão envolvido pelo audiolivro que acaba percorrendo uma maratona e atravessa cenários cada vez mais inesperados sem se desconectar da história.
A campanha também associa essa ideia a produções pensadas para explorar as possibilidades do áudio, citando, por exemplo, as novas edições de Harry Potter com elenco completo. Nesse caso, o diferencial não está apenas em disponibilizar o texto em outro formato, mas em construir uma experiência imersiva com múltiplas vozes e interpretação dramatizada. Para o mercado, a comunicação oferece um exemplo de como apresentar o audiolivro a partir da experiência de escuta e dos contextos em que ela acontece, e não somente como uma versão do livro impresso.
Fonte: Audible Newsroom
RBmedia adquire a Boldwood Books
Em agosto, a RBmedia anunciou a aquisição da britânica Boldwood Books, incorporando um catálogo de cerca de 2 mil títulos. A Boldwood continuará operando como uma divisão independente e publica mais de 500 novos títulos por ano simultaneamente em e-book, audiolivro e impresso, com presença em gêneros como romance, mistério, thriller, ficção feminina e ficção histórica. O movimento aproxima uma operação de publicação multiformato de uma estrutura voltada à produção e distribuição de áudio e mostra como catálogo, direitos, formatos e alcance internacional podem fazer parte de uma mesma estratégia editorial.
Fonte: Boldwood Books
Audiolivros também pedem pensamento estratégico
As novidades de agosto apontam para um mercado em que ampliar a oferta de audiolivros precisa vir acompanhado de estratégias para fazer cada obra circular e encontrar seu público. Metadados, timing, curadoria, redes sociais, influenciadores, formatos complementares e presença nas plataformas passam a funcionar em conjunto: ajudam a decidir o que produzir, quando lançar, como recuperar o backlist e por quais caminhos um audiolivro pode ser descoberto. À medida que o catálogo cresce, pensar estrategicamente essas conexões se torna parte cada vez mais importante para o desenvolvimento do formato e o fortalecimento das editoras.